quinta-feira, 25 de junho de 2015

O dia em que Christian Grey broxou.

O dia em que Christian Grey broxou

Foto: Divulgação
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Christian Grey está broxa.

Não adiantou nenhum dos seus salamaleques eróticos. Olhos vendados, gelinho na boca, palmadas calculadas, ganchos, suaves chicotadas, nadica de nada.

Suas milhares de leitoras ao redor do mundo precisaram ler e reler a mesma página para acreditar naquilo que estava sendo sugerido pela autora.

Como assim?

Por um momento, Christian Grey tentou trocar a psicopatia por um papo cabeça. Só que E.L. James não é James Joyce - é a conversa quase desandou para um “isso nunca aconteceu comigo antes”.

Vai ver, pensou Grey, é a hora de um salto qualitativo no meu caráter, hora de questionar os grandes temas da humanidade: a crise moral, o amor na meia idade, a solidão como ponto crucial na cultura ocidental…

“Se Christian Grey broxou então tudo é permitido”, bradou em voz alta o próprio - citando Dostoiévski, mas pensando em John Lennon.

Grey, que vislumbrava o próprio pau como uma espécie de super-herói, chegou a pensar que aquela broxada era como aqueles minutos de suspense que antecedem os grandes êxitos. Seu pinto seria uma espécie de Popaye em apuros - segundos antes de ingerir uma lata de espinafre.

Só que não rolou. Ele tentou outra vez. Subiu em cima da moça. Fez a mímica do sexo selvagem, falou uns palavrões, apertou com força, mas nem tchum.  "Eu sou o cara do 50 Tons de Cinza, isso não pode estar acontecendo comigo".

Mas estava.

Grey pediu licença, vestiu as calças e foi embora. Precisa tomar um ar. O problema é que o livro já era um sucesso e sua broxada havia se tornado conhecida e reconhecida em todo o planeta.

O anonimato, esse refúgio dos broxas e dos malucos da internet, não foi um opção. Ele era apontado nas ruas, os caras riam da sua cara e as garotas se mostravam consternadas. Uma menina mais ousada tentou ressuscitá-lo, oferendo um boquete rápido atrás de um famoso pub - só que nem isso funcionou. Seu pinto parecia uma paleta mexicana depois que a moda das paletas passou.

Grey procurou um médico. O doutor disse que aquilo era psicológico. Coisa da autora - que estava querendo dar um verniz de alta literatura ao seu trabalho. Ela estava tentando trocar aquela gostosa putaria chique por algo mais substancioso.

“Substancioso é a puta que te pariu”, gritou Grey. “Agora que ela está rica, milionária, vem com essas viadagens de me fazer broxar”, completou.

Viadagens?

Ah, não. Era aquilo mesmo. Como ele já havia suspeitado,  E.L James estaria preparando uma virada na personagem! Grey se descobriria homossexual, um dandi, quase um sujeito que se sentiria à vontade em algumas páginas de Morte em Veneza. Ou então alguém que precisasse dizer frases espirituosas e inteligentes o tempo todo, um Oscar Wilde moderno…

Pior. E quando seu novo livro fosse lançado no Brasil? O que o Malafaia e o Feliciano iriam encher o saco não estava escrito no gibi do Batman… Era melhor que ele continuasse hétero para não criar problemas com esse tipo de gente.

Grey decidiu bater na porta da autora, da mulher que havia lhe dado a própria vida, da multimilionária E.L James. “Que porra é essa?”, perguntaria o herói dos 50 tons à sua criadora.

E.L James já esperava a visita do seu personagem. Claro, ela havia escrito essa cena. Por isso, esperou Grey com aquela combinação clichê de cinta-liga e mais alguma coisa. Grey não entendeu muito o propósito daquilo, mas decidiu não sair correndo.

Com argumentos fracos, Grey disse que ela não era o seu tipo e que, entre eles, havia uma relação quase maternal, um jogo de criador e criatura que não poderia ser quebrado.

A autora disse não. Falou que não adiantava de nada ela ter criado um personagem que não tivesse tesão por ela, que ele seria obrigado a transar com ela ali mesmo, em cima da mesa da sala, na maior bagunça e emoção.

Grey sabia que E.L James estava desvirtuando a história toda, que ele, o cara dos 50 Tons de Cinza, acostumado com aquela gatinha do livro e do filme, não podia transar com essa branquela, cara de nerd, um pouco acima do peso e de cabelo desgrenhado.

Grey jogou a cartada do broxa. “Não posso. Não consigo. Estou broxa”, disse.

E.L James riu e foi para o computador -  de um jeito atabalhoado e pouco sensual. A cada toque no teclado, Grey sentia seu membro emitir sinais de vida. Depois de cinco minutos, dois parágrafos e as reticências no final, o cara dos 50 tons estava pronto para transar com sua criadora.

Foi uma transa mal-escrita, mas que venderia milhões de livros (e teria seus direitos comprados para o cinema).

(são as reticências do final)

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