sexta-feira, 26 de junho de 2015

Como a luta de uma mãe mudará os rótulos de produtos no Brasil.

Mãe carioca celebra informações sobre alergênicos nos rótulos

Filho da jornalista Mariana Claudino sofre de alergia à proteína do leite.
Anvisa determina que substâncias devem estar explícitas no rótulo.

 
Cristina Boeckel  
Do G1

A jornalista Mariana Claudino com Mateus, ou melhor, Teteu, que sofre de alergia à proteína do leite. (Foto: Mariana Claudino/ Arquivo pessoal) 
A jornalista Mariana Claudino com Mateus, ou melhor, Teteu, que sofre de alergia à proteína do leite. (Foto: Mariana Claudino/ Arquivo pessoal)
 
A semana foi de vitória para o grupo 'Põe no Rótulo', formado por mães de crianças que possuem algum tipo de alergia e um dos principais articuladores de mudanças aprovadas na Anvisa esta semana, determinando que alimentos ou substâncias que possam causar alergias estejam em rótulos de produtos. O grupo é formado por gente como a jornalista Mariana Claudino, mãe do pequeno Mateus, ou melhor, Teteu, de cinco anos de idade, que sempre sofreu para encontrar alimentos que pudessem ser consumidos com segurança pelo menino, que é alérgico à proteína do leite. 
Mariana contou ao G1 como foi a formação do 'Põe no rótulo', e sobre sua própria luta no dia a dia para o bem estar do filho.
“Eu sempre tive dificuldade em encontrar produtos seguros no supermercado. Comer fora então, é um verdadeiro problema. A gente não sabe os ingredientes de cada produto olhando somente o rótulo. Eu tive que estudar um pouco, mas a maioria das pessoas não sabem”, conta a jornalista, que é autora de livros como “Almanaque anos 80”.
Como o inimigo está presente nos lugares onde menos se imagina, Mariana viveu momentos de apreensão quando o Teteu foi intoxicado com algo que é comum nas brincadeiras da maioria das crianças: um giz de cera branco. “O meu filho teve um choque anafilático brincando com um giz de escola. Ele estava brincando com ele, coçou o nariz e acabou aspirando. Acabou entrando na corrente sanguínea dele. Não sabíamos que tinha caseína, que é a proteína do leite. Ele passou mal, ficou com os olhos inchados e teve edema de glote”.
Apesar do susto não ter tido consequências mais graves, ela percebeu que a família precisava tomar uma atitude. “A partir daquele momento, a nossa vida mudou. Entendemos que era preciso entrar nessa luta para saber o que há nos rótulos”.

A jornalista Mariana Claudino com Mateus, ou melhor, Teteu, que sofre de alergia à proteína do leite. (Foto: Mariana Claudino/ Arquivo pessoal)
 

Mães se unem

Diante do problema, Mariana começou a conhecer outras mulheres que sofrem com o mesmo problema. Entre as principais queixas estão as informações desencontradas dos fabricantes. “Já vimos a mesma empresa prestar três informações diferentes e contraditórias entre si. E muitos SACs [serviço de auxílio ao consumidor] não funcionam no final de semana e a partir de certo horário. E muitos rótulos tem letras muito pequenas”, diz a jornalista.
Em fevereiro de 2014, algumas dessas mães fundaram a campanha “Põe no Rótulo”, para que os fabricantes deixem clara a composição de cada produto que levam às prateleiras. Desta maneira, cada uma passou a ajudar a causa em sua área de articulação. “A Cecília [a advogada Cecília Cury, doutora em Direito Constitucional pela Puc-SP e uma das coordenadoras da campanha] formou um núcleo e fizemos uma campanha grande, e começamos a fazer um barulho. Criamos uma fanpage, que teve um crescimento absurdo. E cada uma de nós passou a dedicar um tempo de sua rotina para isso”, explica. Atualmente, a página do “Põe no Rótulo” possui mais de 105 mil curtidas.

Mariana Claudino e Mateus (Foto: Mariana Claudino/Arquivo Pessoal)Mariana Claudino e Mateus
(Foto: Mariana Claudino/Arquivo Pessoal)
 
Quando a determinação da Anvisa for publicada no Diário Oficial, os fabricantes terão 12 meses para se adequar à nova norma. Algumas empresas pretendem recorrer da decisão da Anvisa, pedindo que o prazo de regulamentação dos rótulos para que apontem quais são os ingredientes alergênicos seja prorrogado para 36 meses. “Eles argumentam que há custos envolvidos, mas vamos falar de pessoas. Elas não podem esperar. Trinta e seis meses são três anos. Para uma criança que tem dois anos hoje, isso significa que ela vai ter que viver mais de metade da vida dela para a norma ser respeitada”, analisa Mariana Claudino.A mobilização das mães com filhos que possuem algum tipo de alergia acabou por mobilizar a própria Anvisa, que abriu uma consulta pública sobre o assunto que teve mais de cinco mil participações, quando a média é o envolvimento de cerca de 300 pessoas. Ainda antes da aprovação da mudança dos rótulos, no mês passado, várias envolvidas, de vários pontos do Brasil, deram seus depoimentos em uma audiência pública.
Mas a mãe de Teteu, com as outras do grupo, prometem não deixar a regra ser descumprida. “Vamos continuar em cima para que, em 12 meses, os rótulos sejam mudados, como deveria ser desde o começo da campanha”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário