domingo, 28 de junho de 2015

A jornada de uma francesa traída pelo Estado Islâmico.

A jornada de uma francesa traída pelo Estado Islâmico


"Nadia" queria imigrar para uma terra onde reinavam as leis de Alá, mas encontrou na Síria um mundo de brutalidade, onde as mulheres são tratadas como objetos e os valores do Islã não são, em absoluto, respeitados.
Nadia (nome falso) é uma estudante francesa de 21 anos que passou três meses em Raqa, o reduto na Síria do grupo Estado Islâmico (EI). Foi detida em 1º de junho pela polícia turca quando voltava deste país.
Quando falou com a AFP, esperava em um centro de detenção de Gziantep, no sul da Turquia, sua expulsão à França.
Com o aval das autoridades turcas, Nadia aceitou explicar, sob anonimato, como foi recrutada pelo EI, sua viagem à Síria pela Turquia e sua vida em Raqa, para evitar que outras meninas embarquem em sua infeliz aventura.
"Falo para abrir os olhos das meninas jovens que vão para lá pensando 'Sim, o Ocidente está contra nós e o Daesh (o acrônimo em árabe do EI) é o califado", explica, denunciando que, na realidade, o grupo não passa de uma seita.
A mulher, de cabelo castanho escondido sob um véu e que veste uma saia longa e um casaco de lã, explica com voz pausada sua história, o caminho que a levou a se radicalizar através das redes sociais até decidir que precisava ir à Síria.
"Foi um pouco uma lavagem cerebral", afirma a estudante. "Nos diziam 'Você vive em um país onde não há Islã, onde o Islã está proibido, se morrer vai para o inferno' e tivemos medo", explica.
"Posteriormente você se fecha em si mesma, está sozinha. E no fim diz 'de acordo, vou fazer isso, vamos imigrar para terra onde as leis de Alá regem'".
O homem que o recrutou, cujo nome aparece em várias investigações sobre as filiais jihadistas, enviou a ela um cheque de 1.800 euros. No dia 4 de março a jovem viajou a Genebra, onde pegou um voo a Istambul.
Casar para sair de casa
No aeroporto era aguardada por dois homens que a camuflaram com um niqab (véu integral). Juntos pegaram um ônibus a Sanliurfa, no sul do país.
"No dia seguinte, percorremos 50 quilômetros de carro", explica Nadia. "Caminhamos durante 20 minutos, saltamos uma cerca e depois vieram nos buscar para nos levarem a Tall Abyad", uma localidade já na Síria.
No dia 7 de março chegou a Raqa, a menos de 100 quilômetros da fronteira turca, onde o EI estabeleceu seu quartel-general na Síria. Ali foi instalada em uma casa junto a dezenas de mulheres e teve os documentos de identidade e o telefone confiscados.
"Disseram-me: 'Se quiser sair desta casa tem que se casar, caso contrário ficará aqui por toda a sua vida, não sairá' (...) Era proibido telefonar aos pais, ter acesso à internet, tudo era proibido (...) nos disseram que era para a nossa segurança".
Após 15 dias, decidiu se casar com seu "recrutador", de língua materna francesa, mas só durou um dia. "No dia seguinte cancelei o casamento, fui embora e o rapaz me apresentou a duas francesas, com quem fui viver".
As complicações começaram quando os jihadistas a acusaram de "trabalhar para a polícia francesa" e a mandaram à prisão. "Todos os dias me ameaçavam dizendo 'vai morrer, vamos te matar'".
Repouso do guerreiro
"Disse a eles que havia muita injustiça (em Raqa), que para mim não era o Islã (...) Ali não há Corão, só há armas (...) e as mulheres só são usadas para o repouso do guerreiro".
Segundo seu relato, conseguiu convencer seus carcereiros de que era inocente e que a deixassem voltar à França. Foi acompanhada até a fronteira por um homem que devolveu seus documentos e a ajudou a entrar ilegalmente na Turquia. "Disse-me 'Volte à França, mas feche a boca e esqueça tudo'".
No entanto, a história desta libertação gera muitas perguntas. Segundo os especialistas consultados pela AFP, p relato parece muito improvável, e lembram que poucos jihadistas, muito menos mulheres, conseguem deixar o EI sem seu consentimento.
Poucas horas depois de seu retorno à Turquia, Nadia foi detida em Sanliurfa graças à informação que seu pai havia dado à polícia francesa e na terça-feira foi enviada à França, onde está detida.
"A maioria (dos filiados ao EI) são convertidos, praticam muito pouco o Corão, se interessam mais pelo ódio e na guerra", afirma com a intenção de denunciar a verdadeira face dos jihadistas.
"Agora vou avançar em minha religião, mas corretamente. Vou viver corretamente, como as meninas francesas da minha idade", conclui.

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