sexta-feira, 8 de maio de 2015

'Dar vazão a esse amor', diz mãe que criou abrigo infantil após morte do filho.

'Dar vazão a esse amor', diz mãe que criou abrigo após morte de filho

Carla de Magalhães fundou 'Casa Lucas', em BH, em 2013.
Crianças de 0 a 6 anos em situação de risco são assistidas pela instituição.

 
Cíntia Paes *  
Do G1

Instituição acolhe crianças de zero a seis anos em situação de risco.  (Foto: Thaís Leocádio/G1) 
Instituição acolhe crianças de zero a seis anos em situação de risco (Foto: Thaís Leocádio/G1)

Depois de perder o filho único, Carla de Magalhães Pereira, 43, fundou com o marido, Marcelo Karam, uma casa de acolhimento para crianças em situação de risco, no bairro Dona Clara, na Região da Pampulha, em Belo Horizonte. “O Lucas continua sendo meu filho, mas eu precisava dar vazão a todo esse amor que a gente tem por ele e que ele tinha por nós”, explica a bancária.
Em setembro de 2012, Lucas Karam, 10, não resistiu a complicações de uma cirurgia nas amígdalas. “Ele era muito alegre, sem preconceitos e se foi por um motivo que hoje eu entendo: se ele não tivesse vindo e não tivesse ido, a Casa Lucas não iria existir”, conta a mãe. “Muito da credibilidade que a nossa casa tem é em função da nossa história com o Lucas”, acrescenta Marcelo Karam, 45, pai do menino.

Lucas Karam fazendo um autorretrato, em 2007. (Foto: Arquivo Pessoal/Marcelo Karam)Lucas Karam fazendo um autorretrato, em 2007
(Foto: Arquivo Pessoal/Marcelo Karam)

A ideia de criar a casa partiu de Benjamim Murta, cunhado de Carla, depois de a família conhecer várias instituições na capital, durante o processo de doação de roupas e brinquedos de Lucas. “Foi uma forma de homenagéa-lo”, diz Benjamim. “Tudo foi muito bem planejado. Começamos pela parte burocrática e, para sustentar a ideia, montamos uma rede de colaboradores formada por amigos, amigos de amigos, colegas de trabalho e família”, acrescenta Carla.
A Associação Lucas Magalhães Karam foi inaugurada no dia 2 de março de 2013. Atualmente, nove crianças de zero a seis anos sob medida protetiva, vítimas de abandono, negligência, violência ou outras situações de risco, são atendidas pelo lar. Elas permanecem no abrigo até que a Justiça determine se devem voltar para a família de origem, ser encaminhadas para a família estendida (avós, tios…) ou para a adoção.
Oito cuidadoras, uma assistente social, uma psicóloga, uma auxiliar de cuidadora e uma manipuladora de alimentos trabalham formalmente na instituição, seguindo a recomendação do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). Além da equipe, profissionais voluntários como dentistas, cabeleireiros, fonoaudiólogos e cozinheiros se envolvem no cuidado das crianças. “Fazemos de tudo para que aqui seja parecido com um lar; além do carinho, elas têm que ir à escola, ao médico...”, esclarece Carla. Por lei, as crianças assistidas têm vagas compulsórias nas unidades públicas ensino. 
Este Dia das Mães é o terceiro do abrigo e terá almoço especial, preparado pela equipe, como é feito todos os domingos. Para as comemorações da data, a coordenadora Flávia Figueiredo explica que algumas crianças podem passar o dia com padrinhos, fora do lar. E todas elas podem escolher uma pessoa que seja uma referência materna para entregar o presente produzido na escola.

Carla e o marido, Marcelo Karam, diante de uma foto do filho.  (Foto: Thaís Leocádio/G1)Carla e o marido, Marcelo Karam, diante de uma foto do filho. (Foto: Thaís Leocádio/G1)

Segundo a presidente da associação, recentemente, a instituição foi conveniada à Prefeitura de Belo Horizonte e passou a receber uma ajuda mensal. “A casa tem que dar o atendimento dentro das recomendações da Conanda, como estrutura, metragem, quadro de recursos humanos e garantir o acesso das crianças às demais políticas públicas”, explica Helizabeth Itaborahy Ferenzini, gerente de abrigamento da Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social.
Para Carla de Magalhães, a maternidade vai além de gerar o filho. “É a proteção, o carinho, a doação incondicional”, define. “Não tenho a pretensão de ser mãe dessas crianças, mas, enquanto elas estiverem aqui, nós vamos exercer a maternidade nesse sentido do cuidado. Por melhor que seja a unidade de acolhimento, nada substitui a família”, expõe.
A logomarca da instituição é um autorretrato feito por Lucas na escola, em 2007. “Na época em que ele fez esse desenho, a gente nem imaginava que a casa viria a existir”, explica Carla. O casal reconhece a importância dos colaboradores. “Nossa história com nosso filho uniu todo mundo em prol dessas crianças. Eu acho que a missão do Lucas era exatamente essa”, conclui a mãe.
 
* Colaborou para esta reportagem Thaís Leocádio

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