domingo, 22 de março de 2015

Após longo período de seca, chuvas elevam nível do Rio São Francisco.

Após longo período de seca, chuvas elevam nível do Rio São Francisco

Profundidade alcança 5 metros na região de Iguatama, no Centro-Oeste.
Em 2014 seca comprometeu rendimento dos pescadores na cidade.

 
Anna Lúcia Silva  
Do G1

Nível do Rio São Francisco subiu cinco metros segundo Colônia dos Pescadores (Foto: Reprodução/TV Integração) 
Nível do Rio São Francisco subiu cinco metros segundo pescadores 
(Foto: Reprodução/TV Integração)
 
 
A seca da nascente do Rio São Francisco, em São Roque de Minas, afetou de forma drástica uma das principais atividades econômicas da cidade de Iguatama em 2014. Porém, com as chuvas deste ano, o cenário tem mudado e no rio que antes se via lama e pedaços de madeira, hoje se pode apreciar um aumento no nível de profundidade de cerca de cinco metros. Mas, para os moradores da região, ainda não é possível comemorar.
Mesmo com o nível elevado da água do Velho Chico, o representante da Colônia dos Pescadores Profissionais de Iguatama, Geraldo Pereira da Costa, de 71 anos, diz que não é possível comemorar. "Estamos satisfeitos de fato com essas chuvas, mas não podemos comemorar porque as marginais que são as lagoas que sustentam o rio ainda estão vazias. Infelizmente quando passar o período chuvoso o nível baixará novamente", disse.

Nível do Rio ultrapassava base da ponte (Foto: Anna Lúcia Silva/G1) 
Nível do Rio esteve abaixo do normal e alguns trechos secaram (Foto: Anna Lúcia Silva/G1)


No ano passado a maioria dos 75 profissionais passou por dificuldades e muitos tiveram que procurar alternativas para sustentar as famílias. Agora, mesmo com o nível elevado a situação ainda é a mesma. "Os pescadores mantém a atividade de pesca, mas executam outros trabalhos para sustentar as famílias", disse
Há cinco anos, Pedro Henrique Soares pesca no Rio São Francisco. Porém, com a seca rigorosa do ano passado, ele precisou recorrer a outros meios para manter a família. “Trabalho como servente de pedreiro para ganhar dinheiro. Não podemos parar de comer, não é? Da pesca não dá para viver mais, pelo menos por enquanto. Então o caminho é buscar alternativas e me tornei servente até a chuva encher de novo esse rio.”

Ainda em 2014, nos locais onde os barcos a motor entravam da margem para seguir até a parte central do rio restaram apenas alguns filetes de água. Por isso, a navegação só era feita por meio das canoas. A situação agora se normalizou e já é possível fazer navegação com barcos motorizados.
Contudo, os pescadores apontam os barcos com motor de potência superior a 15 cavalos como responsáveis pelo assoreamento e baixo nível da água no rio, causadores da falta de peixes. Por isso, pedem a colaboração de quem usa esse tipo de motor. "Quando esses barcos entram na água, eles fazem ondas que sobem mais de dois metros e, na volta, trazem a terra da margem para dentro do rio, o que provoca o assoreamento e prejudica o esconderijo dos peixes, que são os buracos feitos no fundo do rio", disse o representante dos pescadores de Iguatama, Geraldo Pereira da Costa.
Dessa maneira, os peixes se tornam presas fáceis para os predadores e, inclusive, para o homem. "Somos pescadores e queremos os peixes, é fato. Mas o problema disso é que os amadores se aproveitam e pescam as espécies pequenas. Não há tempo para esses peixes crescerem e muito menos para se reproduzirem e gerar uma maior quantidade", explica.

Rio São Francisco está abaixo do nível normal (Foto: Anna Lúcia Silva/G1)Rio São Francisco em 2014
(Foto: Anna Lúcia Silva/G1)

Além disso, o movimento dos motores desses barcos desloca as figueiras, árvores de até 15 metros, comuns na mata ciliar e que protegem o curso do Velho Chico. "O motor bate na base dessas árvores, que acabam despencando. Portanto, o que é proteção na margem também acaba desaparecendo. São inúmeros os problemas causados por esses motores de alta capacidade. Nós, pescadores, geralmente usamos barcos com quatro cavalos, então seria viável que as outras pessoas também adotassem essa mesma potência", afirma.


Alevinos

A Colônia dos Pescadores sugere ainda que as empresas criadoras de alevinos soltem peixes no Rio São Francisco. "Se houver reposição de alevinos dentro do rio, será possível retornar com a reprodução e assim equilibrar a vida aquática desses animais e em consequência alavancar a atividade comercial do município que é a pesca", disse.
Ficha - especial seca - Iguatama (MG) (Foto: G1) No ano passado uma empresa chegou a soltar dez mil peixes das espécies curumatã e pial em Iguatama, nas águas do São Francisco. "Soltaram essas espécies e foi muito útil porque eles reproduziram muito. Cresceram dentro de seis meses. Agora precisamos de espécies como surubim, dourado e pacumã", contou.


Rotina dos pescadores

A rotina dos pescadores de Iguatama começa cedo em épocas normais de rio cheio – às 4h eles saem de casa. Antes, era possível pescar de 30 a 40 peixes num dia de trabalho. Após o período da seca quase não se pesca um. "Não passa disso. Um dia inteiro para pegar um peixe, e tem dias que nem isso consigo", lamenta Francisco Romoaldo.
O pescado é vendido na cidade e cada pescador é responsável pela própria renda. Espécies como curimatã e piau são vendidas a R$ 15 o quilo. Cada peixe tem pesado, em média, oito quilos e, no fim do dia, Romoaldo recebe R$ 120.
Segundo os pescadores, os peixes mais caros no mercado da cidade são o surubim e o dourado, custando R$ 25 o quilo de cada um. Contudo, eles não encontram mais essas espécies no rio desde quando o nível abaixou. “O que a gente acha é curimatã e piau, e quando acha. Além do mais, esses peixes têm normalmente 12 quilos, mas com a seca estamos achando de oito quilos. Isso é reflexo da falta de reprodução e de alimentos para o crescimento das espécies”, afirma Pedro Henrique.
Por se tratar da principal atividade de trabalho do município, os pescadores que comprovaram viver da pesca e que são associados à Colônia de Pescadores Profissionais receberam uma espécie de seguro-desemprego entre novembro e março, período de desova dos peixes, chamada de piracema. Anualmente eles param as atividades e recebem um salário mínimo por mês, segundo a secretária de Agricultura e Meio Ambiente. “O governo paga esse valor a eles para que os peixes possam se reproduzir sem interferência humana. Mas, para isso, o pescador precisa provar por meio de notas fiscais que vive da pescaria”, explica o representante da Colônia dos Pescadores.

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