quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

MG é 2º estado em número de união civil entre mulheres.

Casais lésbicos destacam valor da igualdade de direitos com união civil

Minas Gerais ocupa 2º lugar no país, com 109 casamentos entre mulheres.
Professora Joana Ziller e fotógrafa Cíntia Freitas oficializaram uniões.

 
Flávia Cristini  
Do G1

Antes do casamento civil, Joana Ziller já havia assinando contrato de união estável. (Foto: Joana Ziller/ Arquivo pessoal)Antes do casamento civil, Joana Ziller já havia
assinando contrato de união estável
(Foto: Joana Ziller/ Arquivo pessoal)

Uma importante conquista de direitos. É assim que a professora e pesquisadora Joana Ziller, 39 anos, vê a união civil entre pessoas do mesmo sexo. No ano passado, ela oficializou um casamento gay, após cerca de 10 anos de relacionamento e união estável. Ela, a mulher e um bebê de seis meses formam uma família em Belo Horizonte. Segundo ela, são uma “exceção” na sociedade, onde “o medo de se assumir ainda é grande”.
O casamento dela é um dos 109 entre cônjuges femininos registrados em Minas Gerais no ano passado. O estado aparece em segundo lugar em número de casamentos do tipo no Brasil, ficando atrás de São Paulo (1.048). Na capital Belo Horizonte, foram 57 uniões civis entre pessoas do mesmo sexo. O levantamento Estatísticas de Registro Civil 2013 foi divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nesta terça-feira (9).
“É um número muito pequeno, mas que incentiva as pessoas que desejam se casar e buscar a oficialização da união que vão viver. É uma garantia de direitos”, afirma. Segundo ela, a decisão de ser casar deixou algumas coisas mais práticas, como a inclusão de um dependente no plano de saúde e na cota do clube. A declaração do Imposto de Renda já podia ser feita de forma conjunta.
Segundo o levantamento, a maioria dos casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo – incluindo casais masculinos e femininos – foram realizados no Sudeste (2.408) – sendo 80% da região em São Paulo. O estado é o que tem mais registros de casamentos gays no país (1.945), seguido do Rio de Janeiro (211) e Minas Gerais (209).
“Estamos em um processo que é importante, de grande legitimidade. À medida que os casais vão registrando e aparecendo um pouco mais, isso encoraja outras pessoas"
Joana Ziller, professora
Em 2013, ano em que uma resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou que os cartórios realizassem a união civil entre pessoas do mesmo sexo, o país registrou 3.701 casamentos do tipo, apenas 0,35% do total. Deles, 52% foram entre mulheres e 48% entre homens, segundo os dados do IBGE.
A professora espera que o levantamento contribua para mostrar a existência das famílias homoafetivas. “Estamos em um processo que é importante, de grande legitimidade. À medida que os casais vão registrando e aparecendo um pouco mais, isso encoraja outras pessoas. As gerações mais jovens começam a se planejar para esta possibilidade”, afirma.
Apesar das conquistas, ela diz que nem sempre está livre do que chama de “constrangimentos cotidianos”. Há seis meses, Joana deu à luz um menino, gerado por inseminação artificial, e enfrentou posturas preconceituosas em algumas clínicas. O novo propósito agora é que mulher também consiga a maternidade do bebê que decidiram gerar. “Será o primeiro caso em Minas de pedido de reconhecimento de comaternidade de um filho gerado de união homoafetiva, pelo que temos conhecimento”, afirma sobre o pedido levado à Justiça Mineira.
A fotógrafa Cíntia Freitas e a fisioterapeuta Clara Correa, de 29 anos, se casaram em outubro deste ano. Além da cerimônia no civil, se vestiram de noiva, escolheram o cachorro para porta alianças e decidiram marcar o momento com uma festa. “A decisão foi dela [Clara], que um dia perguntou o que eu achava da gente se casar. Foi aquele pedido de casamento mais fofo. De início eu disse um “tá” e não um “sim”, aquela coisa do susto”, conta entre risos. No dia seguinte, começaram a providenciar a documentação.

Cintia e Clara se casaram em outubro deste ano  (Foto: (Foto: Cintia Freitas/ Arquivo pessoal)) 
Cintia e Clara se casaram em outubro deste ano (Foto: Cintia Freitas/ Arquivo pessoal)
 
 
Sobre os dados de casamentos entre mulheres em Minas Gerais em 2013, ela considera os números positivos. “Acho alto, por existir uma discriminação velada”, afirma. Cíntia diz que existe um preconceito não assumido pela sociedade e, mesmo temendo a exposição, há lésbicas assumindo a união publicamente. “Acho que contribui para a igualdade de direitos. De repente, pra gente receber um atendimento igualitário em lugares gerais”, afirma.
Para a fotógrafa, a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo serve também para orientar a postura das pessoas que são contrárias. “Toda vez que falo ‘minha esposa’, as pessoas dão uma travada. E, por ser uma coisa legal, acabam omitindo a opinião, se contrária. Eu prefiro que as pessoas guardem a opinião delas, se negativa”, disse, considerando ser “um estresse a menos”.

O casal tem um relacionamento tranquilo com familiares e amigos, mas já foi alvo de xingamentos na rua e de violência. Segundo a fotógrafa, ela teve que mudar de prédio por causa de agressões verbais e físicas e, atualmente, move processos contra um casal de ex-vizinhos.

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