quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Tradição de 150 anos transforma cidade de São Tiago, MG, na 'terra do biscoito'.

Tradição de 150 anos transforma cidade na 'terra do biscoito' em MG

São Tiago, de 10,5 mil moradores, produz quitutes há mais de 1 século.
Pelo menos metade da população ajuda a produzir 6 mil toneladas anuais.

 
Samantha Silva 
São Tiago, MG
 
Festa do Biscoito de São Tiago teve neste ano a sua 16ª edição (Foto: Samantha Silva / G1) 
Festa do Biscoito de São Tiago teve neste ano a sua 16ª edição 
(Foto: Samantha Silva / G1)
 
 
A pouco menos de 200 km de Belo Horizonte (MG) fica a pequena cidade de São Tiago, no Sul de Minas. Antes que fosse preciso alardear muito, toda a região já conhecia o município como a terra do café com biscoito. A tradição na produção dos quitutes é conservada por mais de 150 anos. Mas o que a difere de tantas outras cidades que conservam sua história é que os moradores de São Tiago a transformaram em fonte de renda. Ao menos um terço dos 10,5 mil moradores da cidade (segundo senso IBGE de 2010) ajudam a produzir 6 mil toneladas dos quitutes para vender para toda a região e em ao menos outros quatro estados. O grande feito garante ao município no mínimo um roteiro diferente da maioria das pequenas cidades do interior de Minas Gerais: a oportunidade de sucesso profissional sem precisar sair de casa.
Ninguém na cidade sabe definir ao certo quando o processo de industrialização dos biscoitos de São Tiago começou a se expandir. O que se sabe é que a tradição de produzir biscoitos e a qualidade dos mesmos sempre fez com que muita gente fosse à cidade comprar os quitutes e os levasse para fora. Para os fabricantes, fica difícil até definir o alcance que as vendas tomam. Atualmente São Tiago vive um paralelo entre a tradição artesanal que se mantém e um futuro que caminha para a produção massiva dos biscoitos. Com a criação de uma associação de fabricantes do produto, há 12 anos, as vendas aumentam a cada ano.

Enroladeiras preparam biscoitos em padaria de São Tiago, MG (Foto: Samantha Silva / G1) 
Enroladeiras preparam biscoitos em padaria de São Tiago, MG 
(Foto: Samantha Silva / G1)


A cidade hoje produz mais de 100 tipos diferentes de biscoitos e a divulgação mais eficaz para se manter as vendas acontece em uma festa anual que serve biscoito e café de graça na praça do pequeno município. Em fevereiro do ano passado, os biscoitos de São Tiago também conquistaram o selo de procedência do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), garantindo que o produto de lá não se repete em nenhum outro lugar.
Para uma população que constantemente demonstra o quanto ama o lugar onde vive, a oportunidade de negócio “caiu do céu”. O setor cria postos de trabalho ano a ano e o retorno financeiro torna desnecessário procurar emprego “na cidade grande”.

Professora aposentada guarda história e poesias
de São Tiago (Foto: Samantha Silva / G1)
Professora aposentada guarda história e poesias de São Tiago (Foto: Samantha Silva / G1)Era uma vez...

Muita coisa é incerta sobre o povoamento da região que hoje é São Tiago, mas a tradição conta que os primeiros habitantes buscavam ouro na região de Vargem Alegre, na Fazenda das Gamelas, de propriedade do padre José Manoel. Essa história tem início em 1708.
Também na memória do povo é preciso buscar a origem dos tradicionais biscoitos de São Tiago. A professora aposentada Nilza Trindade Morais Campos já soma seus 70 anos e se orgulha em dizer que dedicou 45 deles dando aulas nas escolas da cidade. “Acho que todo mundo de São Tiago foi meu aluno. Aposentei, mas ainda tenho saudade”, diz com um alegre sorriso no rosto.
Dona Nilza faz questão de destacar que sempre ensinou a origem e cultura do café com biscoito de São Tiago na escola. As crianças da cidade crescem conhecendo sua história, a admiram e fazem até poemas em homenagem a São Tiago. Dona Nilza já até publicou livros poetizando a tradição municipal. Ela começa a relatar o que a ela foi contado: desde a época dos bandeirantes se produzia quitutes no arraial. Comboios e viajantes que passavam pela região eram recebidos com os biscoitos e o cafezinho e usavam as fazendas para descansar do longo caminho. “Eles chegavam e as sinhazinhas iam fazer as guloseimas e quitutes para servir para o pessoal”, conta.
Para continuar a história, dona Nilza puxa a lembrança da própria infância. Segundo ela, o pai foi um dos primeiros fabricantes de polvilho da região. Ela conta que o sítio da família era formado pela fábrica, o engenho de açúcar e as lavouras onde muita gente trabalhava não por dinheiro, mas por amor. O biscoito produzido na fazenda não era feito para vender, mas somente para hospitalidade. “Me lembro quando chegava os viajantes no sítio. A gente ficava olhando pela fresta da janela os cavaleiros que chegavam, numa curiosidade. E tinha aquele monte de vasilha na cozinha, cheias de biscoitos para receber [a visita]. E naquela época era assim: se um vizinho precisasse de hortaliças, era de graça, as pessoas doavam pra vizinhança. As coisas eram diferentes naquela época.”
 

Fazer biscoito se aprende em casa

Em São Tiago, toda visita que entra em casa é logo chamada para a cozinha. Os anfitriões não se demoram a dizer: “Entra, vou passar um cafezinho com biscoito.” E é assim que entramos no casarão de cerca de 200 anos da Fazenda da Serra. Dona Antônia Elena de Almeida puxa o bule e coloca a água pra ferver no avermelhado fogão a lenha. Em seguida, se desculpa pelo velho chão rústico da cozinha: “Tião não deixa reformar essa casa”, reclama, se referindo ao marido, seu Sebastião Galdêncio de Almeida.

Dona Antônia na porta do casarão de 200 anos, na fazenda de São Tiago (Foto: Samantha Silva / G1) 
Dona Antônia na porta do casarão de 200 anos, na fazenda de São Tiago 
(Foto: Samantha Silva / G1)
 
 
Pois se o velho casarão da fazenda já soma seus dois centenários, também é na cozinha dele que a família Almeida representa a história de uma cidade que começou servindo quitutes por quem passasse pelo arraial e hoje os vende para as “bandas” de Norte a Sul do país. A mãe de dona Antônia já sabia fazer biscoitos e a avó também. Faziam para dar e vender. Ela só aprendeu a fazer para servir em casa.
Assim como Dona Antônia, todas as mulheres de São Tiago aprenderam a fazer biscoito em casa, receita passada de mãe pra filha. Os maridos, se não produziam os ingredientes, trabalhavam nas propriedades rurais de onde os ingredientes saíam para dar continuidade à tradição. A fazenda é o retrato da vida dos moradores da antiga São Tiago.
Dona Antônia vai colocando na mesa os biscoitos de farinha de milho já prontos com manteiga caseira e café de bule. Ao seu lado está seu ‘Tião, com quem é casada há 55 anos. Ela já tem 71 anos e ele “dois machados” (77 anos). Passaram a maior parte da vida na roça e ali criaram 13 filhos.
Sou um caboclo feliz, só não tenho é profissão, mas não importo com isso não. Eu vou lá pra serra, que lugarzinho bão. Lá tem muita água, eu não pago nem um tostão. Não é como na cidade, que é cheia de exploração. Eu vivo lá com Deus e não tenho medo não. Lá eu tenho uma rede, é nela que eu vou deitar. Só escuto os pássaros cantar. Eu tenho uma vida de rei, mas eu não sou rei não."
Sebastião Galdêncio de Almeida
Casaram-se no dia de São Tiago, 25 de julho. O aniversário de casamento de 50 anos inspirou seu Tião a fazer um poema, mais um entre muitas das rimas que ele faz para contar tudo que acontece na vida: “Ó São Tiago, há 50 anos ‘atrás’, 25 de julho, não esqueço jamais. Minha mulher era bonita e eu muito mais. Ela gostava de mim e eu dela ainda mais. Agora ela está velha e eu velho demais. Muita coisa que nós fazíamos, hoje não faz mais. Pulava cerca e buraco, hoje não pula mais. Dançava muito forró e hoje não dança mais. A vida, ao invés de ir para frente, está voltando para trás.”
E voltando ‘para trás’, dona Antônia se lembra da festa do seu casório. “No meu casamento só teve biscoito e café. Aqui em São Tiago era assim: todo casamento que tinha era só café com biscoito que era servido nas festas. Agora o povo já varia. Muita gente casa às 11h, então tem almoço na festa”, revela. Mas mesmo que o tempo tenha passado, ela emenda dizendo que se o casório não for na hora do almoço, ainda é servido café com biscoito, e também nos velórios, nascimentos, aniversários. “Só duas filhas minhas fizeram o casamento na hora do almoço”, completa.

Seu Tião e a mulher Antônia, na fazenda em São Tiago (Foto: Samantha Silva / G1) 
Seu Tião e a mulher Antônia, na fazenda em São Tiago 
(Foto: Samantha Silva / G1)

Nenhum comentário:

Postar um comentário