terça-feira, 14 de outubro de 2014

Na melhor universidade do mundo, brasileiro diz que é 'esforçado'.

'Não sou gênio', diz brasileiro aluno na melhor universidade do mundo

Caltech (EUA) lidera ranking mundial de universidades pelo 4º ano seguido.
Brasileiros contam como é a rotina puxada de estudos no instituto.

 
Cauê Fabiano  
Do G1
 
Victor Venturi passou em 6 universidades, mas escolheu o Caltech para cursar Engenharia Mecânica na Califórnia (EUA) (Foto: Victor Venturi/Arquivo Pessoal) 
Victor Venturi passou em 6 universidades, mas escolheu o Caltech para cursar Engenharia Mecânica na Califórnia (EUA) (Foto: Victor Venturi/Arquivo Pessoal)


Pelo quarto ano seguido, o Instituto de Tecnologia da Califórnia, também conhecido como “Caltech”, foi eleito novamente a melhor universidade do mundo, de acordo com o ranking divulgado no início do mês pelo Times Higher Education, deixando para trás nomes famosos como Harvard, Oxford, Stanford e Cambridge, respectivamente.

A instituição é uma verdadeira “pequena notável” no meio acadêmico, contando com 2.181 alunos, sendo atualmente 977 alunos de graduação e 1.204 alunos de pós-graduação (incluindo mestrado, doutorado e pós-doutorado), em um ambiente de apenas três discentes para cada professor.

A instituição recebeu 6.625 inscrições para o processo seletivo da turma de 2018, o que representa mais de três vezes o número de alunos em todo o Caltech. Dois dos cinco brasileiros que estudam na universidade contaram ao G1 como conseguiram uma vaga no Instituto, os esforços para acompanhar a puxada rotina de estudos e as dicas para quem deseja estudar no exterior.
No segundo ano do curso de engenharia mecânica e presidente do clube de xadrez do Caltech (ou 'a' Caltech, para alguns dos íntimos que preferem usar o termo universidade a instituto), o jovem Vitor Venturi, de 19 anos, revelou que seu interesse pela área e o desejo de estudar fora começaram quando ainda estava no 7º ano do ensino fundamental, ao participar de competições na área de exatas, nas quais conquistou 3 ouros e 3 bronzes na Olimpíada Paulista de Matemática, e viu palestras sobre estudar fora do país, o que serviu como motivação para se dedicar a processos seletivos internacionais durante o ensino médio.
"Foram três anos de muito trabalho, muitos estudos, de sentar a bunda na cadeira e ficar com ela ‘chata’ de tanto se preparar", brincou Victor, durante a conversa, após o término de uma aula a respeito de equações diferenciais.

Mesmo após passar em 1º lugar na Unicamp, ser aprovado na Escola Politécnica da USP (onde chegou a iniciar o curso) e na UFSCar, além de ser também admitido nas universidades de Columbia e Duke, nos EUA, e a Universidade de Toronto, no Canadá, Victor escolheu estudar no pequeno instituto na cidade de Pasadena, na Califórnia, principalmente pela posição no ranking mundial e a oferta de bolsas. "A Caltech é um pouco mais gentil quanto a bolsas, um pouco mais generosas do que as universidades em geral", revelou o brasileiro.
No ensino médio, eu era um dos melhores da escola e, agora aqui, a ideia de melhor aluno não existe, porque todos eram melhores alunos em suas escolas, e todo mundo é incrivelmente esforçado e inteligente. Então aqui a expressão melhor aluno não faz sentido"
Victor Venturi,  aluno de engenharia
da Caltech
"Não sou nenhum gênio, sou apenas um aluno esforçado. E vou dizer: têm bastante gênios aqui na Caltech, que conseguem levar uma vida realmente tranquila, sem estudar tanto. Não são muitos, mas eu não sou um deles. Tenho que ser bem esforçado, organizado, bem disciplinado", reiterou Victor, que enxerga um modelo mais abrangente a respeito das mentes brilhantes que estudam na universidade.
"É muito interessante que, por exemplo, no ensino fundamental, eu era o melhor aluno da escola. No ensino médio, eu era um dos melhores da escola e, agora aqui, a ideia de melhor aluno não existe, porque todos eram melhores alunos em suas escolas, e todo mundo é incrivelmente esforçado e inteligente. Então aqui a expressão melhor aluno não faz sentido", destacou.


Rotina

'Se nós não fôssemos competitivos, não seríamos os primeiros do mundo', avaliou Victor Venturi (Foto: Victor Venturi/Arquivo Pessoal) 
'Se nós não fôssemos competitivos, não seríamos os primeiros do mundo', avaliou Victor Venturi (Foto: Victor Venturi/Arquivo Pessoal)
 
 
O ritual diário é o mesmo adotado por alunos na maioria das universidades, mas até certo ponto - acordar, banho, café da manhã e partir para a aula. Contudo, o término do período é somente uma formalidade, já que, para acompanhar o ritmo do instituto, é preciso uma dedicação em tempo integral - às vezes em ritmos nem tão saudáveis, como noites de estudo em claro, ou "noitadas", como Victor gosta de definir - e já foi vítima de várias.
Como as tarefas, em forma de listas de exercícios, são bastante comuns e contam como parte da nota, além das provas, é bastante comum que os alunos se juntem para resolver os problemas, em um sistema chamado de "Collaboration Policy", ou política de colaboração, em tradução livre.


Caltech fica na região de Los Angeles

"As listas são extremamente difíceis, em especial se comparadas com outras universidades em geral. Juntamos um grupo de 5 a 10 amigos e vamos na biblioteca ou no quarto de algum deles e passamos a noite fazendo as listas e trabalhando nelas. É de fato muito difícil, mas, em geral, é bastante divertido", frisou o estudante, revelando em tom de modéstia que não se enquadra entre os crânios da instituição.
O clima de boa vizinhança do Instituto, todavia, não abre espaço para "corpo mole". Segundo o estudante, existe um acirrado clima de disputa entre os discentes, mas que isso também acaba sendo positivo para servir como diferencial para a escola. "O pessoal aqui é bem competitivo. Mas, se nós não fôssemos competitivos, não seríamos os primeiros do mundo. Nós somos pessoas competitivas, mas numa ideia de competição saudável. A gente dá o melhor que a gente consegue, e temos ciência do que estamos fazendo", explicou o jovem.


'Casa' pequena e boa fofoca

Prédio do Centro Cahill de Astrociência e Astrofísica no campus do Caltech em Pasadena, na Califórnia (EUA) (Foto: Tales Caldas/Arquivo Pessoal) 
Prédio do Centro Cahill de Astrociência e Astrofísica no campus do Caltech em Pasadena, na Califórnia (EUA) (Foto: Tales Caldas/Arquivo Pessoal)
 
 
De acordo com a instituição, o campus do Instituto de Tecnologia da Califórnia possui apenas 50 hectares (cerca de 500 metros quadrados), um nanico em comparação aos 800 hectares da Cidade Universitária, em São Paulo. Além de deixar os estudantes mais próximos e facilitar o contato com os professores, que almoçam no refeitório comum e dedicam horas do dia para receber os discentes, o clima mais intimista da instituição facilita que a "boa fofoca" se espalhe rápido - não o clássico "quem ficou com quem", mas sim a respeito de avanços científicos ocorridos dentro do campus.
"Você fica sabendo de tudo que acontece no campus rapidinho. Se alguém acabou de descobrir um novo composto químico que tem propriedades X e Y, você vai saber no dia, porque tem um amigo que trabalha naquele laboratório que o professor descobriu esse composto", exemplificou, destacando que o tamanho reduzido também acaba tornando a universidade menos burocrática.
Essa característica compacta do campus também funciona como "ponto negativo" da universidade, e Victor assume que ficou mais preguiçoso para se deslocar distâncias maiores, já que tudo é naturalmente muito próximo. A "Avery", uma das oito residências estudantis e que fica mais afastada das demais, está a até cinco minutos de qualquer parte do campus, o que faz com que alguns alunos usem o local ponto de referência de tempo. "A gente começa a medir distância em 'Averys'. 'Vamos comer em tal lugar? Não, isso tá a duas Averys de distância'", brincou o brasileiro, confessando que já considera andanças de mais de cinco minutos "uma p... caminhada".
Ainda decidindo entre as áreas de nanotecnologia e robótica e com planos de cair de cabeça no mundo acadêmico e conseguir um PhD nos EUA - ainda que diga que cientistas, em geral, são "meio capengas, meio pobrinhos", Venturi afirmou que alunos que desejam estudar no exterior precisam focar nos estudos desde cedo, buscando diferenciais e lembrando da importância da interdisciplinaridade.

"Seja um bom aluno, top 5 do seu ano na escola. E não só um aluno que estude, e que faça outras coisas que não seja sentar a bunda na cadeira. As universidades americanas estão interessadas em pessoas que fazem muitas coisas. Ser um aluno mente aberta", recomendou Victor, sublinhando que, caso o destino a Califórnia, pode ser mais difícil conviver com a comida muito apimentada do que a saudade dos parentes do Brasil.


Passar sem colar

O brasileiro Tales Caldas escolheu o Caltech para realizar seu doutorado na área de nanofotônica (Foto: Tales Caldas/Arquivo Pessoal) 
O brasileiro Tales Caldas escolheu o Caltech para realizar seu doutorado na área de nanofotônica (Foto: Tales Caldas/Arquivo Pessoal)
 
 
O brasileiro Tales Caldas, Capitão Engenheiro da Força Aérea Brasileira, de 34 anos, também escolheu a universidade californiana para estudar, entretanto, este já realiza seu doutorado na área de Nanofotônica (que estuda o comportamento da luz em escala nanométrica), e pretende utilizar o conhecimento adquirido no exterior para produzir um retorno acadêmico ao Brasil, por meio do IEAv (Instituto de Estudos Avançados), organização militar do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), onde trabalhava.
“No IEAv, eu trabalhava com pesquisa na área de sensores à fibra óptica, e a ideia é fazermos com que o Brasil se torne tecnologicamente independente de outros países nesta área. No desenvolvimento desses sensores, um dos próximos passos para evoluir tecnologicamente é tentarmos produzir circuitos ópticos integrados dentro do Brasil. Além do fato do Caltech sempre estar entre as melhores universidades do mundo, ele possui uma grande experiência na área de micro e nanofabricação, conhecimento necessário para a fabricação destes circuitos.”
Caldas, que mora com a esposa brasileira e os dois filhos, com 3 anos e o segundo com 11 meses, este último nascido nos EUA, garantiu que tentou encontrar pontos negativos na universidade, lamentando apenas a falta de "calor humano" dos estudantes, característica brasileira em falta no resto mundo, mas preferiu destacar os 33 prêmios Nobel obtidos por acadêmicos do Caltech e o "Código de Honra" obedecido pelos estudantes. "Aqui os alunos não 'colam' nas provas, não copiam listas de exercícios, entre outros aspectos de conduta. Isso acaba moldando o perfil dos alunos que aqui se formam, que tendem a ser profissionais mais éticos e dedicados", contou.

Busto do físico Robert Andrews Millikan, o primeiro
dos 33 vencedores do Prêmio Nobel do Caltech
(Foto: Tales Caldas/Arquivo Pessoal)
Busto do físico Robert Andrews Millikan, o primeiro dois 33 vencedores do Prêmio Nobel do Caltech (Foto: Tales Caldas/Arquivo Pessoal)Receita de sucesso

A partir da sua experiência no exterior, Tales afirma que, mesmo com os acertos das instituições de ensino brasileiras, as universidades americanas dão lições importantes sobre a postura que deve ser adotada diante dos alunos, a valorização dos professores e o investimento em estrutura, que acabam influenciando diretamente na qualidade da produção científica da instituição.

"A faculdade tem que valorizar o aluno, mas ao mesmo tempo 'não passar a mão na sua cabeça'. Em contrapartida, o aluno também tem que ser cobrado como um adulto, e a universidade não deve permitir que profissionais se formem com lacunas em sua formação. Os professores também devem ser valorizados, e não simplesmente tratados como funcionários de uma empresa. Provavelmente ali se encontra a maior riqueza de uma universidade", enumerou. "Por último, investimento na estrutura. Prédios novos sempre são um fator motivador. Equipamentos modernos, manutenção das verbas para pesquisa são fatores que muitas vezes definem o sucesso ou o fracasso de uma pesquisa", concluiu.


A melhor do mundo

Ambos os brasileiros, que não economizaram elogios ao Caltech, também não fizeram questão de esconder o vislumbre - e a responsabilidade - de ser parte do corpo discente da instituição tetracampeã do título de melhor do mundo. "Me veio à mente algumas vezes: 'caramba, eu ainda não acredito que eu consegui estar aqui'. O fato de Caltech ter sido eleita a melhor do universidade do mundo só aumenta a minha responsabilidade", comentou Tales Caldas, dizendo que o maior prêmio, sem dúvida, será obter o diploma do instituto após defender sua tese de doutorado.

"É uma experiência ímpar. Ter a possibilidade de estudar aqui e conhecer todas essas pessoas brilhantes que trabalham e estudam aqui é fantástica", finalizou Victor Venturi.

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