quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Brasileiros criam método para estudar danos do Alzheimer ao cérebro.

Brasileiros criam método para estudar danos do Alzheimer ao cérebro

Cientistas recriam sintomas da doença em primatas em busca da cura.
Animais foram testados no Canadá; pesquisa é de grupo da UFRJ.

Eduardo Carvalho Do G1, em São Paulo
Na imagem é possível ver o ataque dos oligômeros beta-amiloide (vermelho) a neurônios de primatas. A toxina reduz a atividade dos neurônios. (Foto: Reprodução/The Journal of Neuroscience)Na imagem é possível ver o ataque dos oligômeros
beta-amiloide (vermelho) a neurônios de primatas. A toxina reduz a atividade dos neurônios (Foto: Reprodução/The Journal of Neuroscience)

Pesquisadores do Brasil e do Canadá desenvolveram um novo protocolo de pesquisa com exemplares de macacos para analisar os efeitos do Alzheimer no cérebro e, com isso, ajudar na busca da cura para a doença, que, segundo estimativas, afeta 36 milhões de pessoas no mundo.
O grupo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a Queen’s University, de Kingston, “recriou” os sintomas da enfermidade em primatas jovens que estavam em um laboratório canadense. A prática substitui o emprego de animais idosos nas investigações.
Antes, era necessário aguardar o envelhecimento natural dos primatas para analisar o surgimento de sintomas semelhantes ao do Alzheimer – como a redução das sinapses, que leva à perda da memória, e problemas de cognição –, o que, na opinião da professora Fernanda De Felice, uma das autoras da investigação, tornava o estudo inviável.
Segundo ela, cada primata da espécie Macaca fasciculares, utilizado na pesquisa, pode viver até 30 anos, o que fazia “demorar décadas para obter algum dado sobre a doença”. Em média, um exemplar deste macaco pode viver até 30 anos.


Novo método

Agora, os cientistas aplicam toxinas – oligômeros formados pelo peptídeo (pequenos pedaços de proteína) denominado beta-amiloide, formados nos estágios iniciais do Alzheimer – em cobaias com idade entre 9 e 16 anos. O desenvolvimento da doença está relacionado ao excesso desta toxina no cérebro.
De acordo com Fernanda, a necessidade de se usar os primatas se deve à semelhança com o cérebro humano. Antes, segundo ela, foram feitos vários experimentos referentes ao tratamento do Alzheimer em roedores. O êxito desses testes não se repetiram quando foram refeitos em pacientes humanos). Por isso, a necessidade de outro modelo de pesquisa.
“O cérebro dos roedores é muito diferente ao cérebro humano. Apesar de não sabermos exatamente qual o percentual de semelhança entre o cérebro de um macaco e o do ser humano, o tamanho é parecido. Outro exemplo é que o Alzheimer cria emaranhados neurofibrilares no cérebro (proteínas que causam ao mau funcionamento dos neurônios). Nos roedores isso não aparecia, no macaco, sim”, explica


Necessidade de testes com animais


Cérebro de primatas se aproxima ao de humanos; órgão de ratos é bem menor (Foto: Divulgação/Adaptado de Pasko Rakic, 2009) 
Cérebro de primatas se aproxima ao de humanos; órgão de ratos é bem menor 
(Foto: Creative Commons/Thomas Retterbush/Adaptado)

O uso de animais em experimentos científicos é um tema delicado no Brasil. No ano passado, ativistas invadiram um laboratório em São Roque (SP) e libertaram cães da raça beagle, além de roedores, utilizados em testes em um laboratório de pesquisas.

Após esse episódio, o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, deu mais atenção aos métodos alternativos ao uso de cobaias, no intuito de reduzir a quantidade de diferentes espécies aplicadas em laboratórios. No início de setembro, o órgão reconheceu 17 métodos alternativos para diversos testes, entre eles o de potencial de irritação e corrosão da pele.

No entanto, ainda não há um substituto ao animal em pesquisas voltadas ao Alzheimer, de acordo com Fernanda. “Não há como eliminar totalmente o uso de animais. Os testes clínicos em doenças neurodegenerativas vêm falhando e isso indica que precisamos entender os mecanismos em diferentes modelos [além dos roedores]. O primata é crucial para pegarmos alguns aspectos que não conseguimos entender”, explica.

A cientista diz ainda que seu grupo trabalha com a "teoria da pirâmide", em que o uso de animais é deixado para o último caso (no topo), após a experimentação com a cultura de células in vitro (base). “Temos que usar o mínimo possível [de animais]”, finaliza. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de ética de experimentação animal da Queen's University.

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