sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Conheça a mulher por trás do sucesso das Havaianas.

“As reuniões seriam mais eficientes se os brasileiros ouvissem melhor”, diz executiva da Havaianas

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Carla Schmitzberger, líder da Havaianas                Foto: Divulgação

Diretora da Unidade de Sandálias da Alpargatas e principal executiva da Havaianas, negócio número 1 do grupo, Carla Schmitzberger nasceu na cidade alemã de Colônia, concluiu o curso de engenharia química nos Estados Unidos, trabalhou na Procter, no Canadá.

Mas, apesar do leve sotaque gringo, Carla passou a juventude no Rio de Janeiro e, depois de uma carreira bem internacional, preferiu se estabelecer por aqui. “Minha pátria é o Brasil”, diz ela.

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Carla, você é a principal executiva de uma marca fortíssima, tanto no Brasil quanto fora. Como é que você chegou aqui?

Fiz engenharia química na UFRJ e concluí o curso nos Estados Unidos. Tentei arrumar um emprego por lá quando terminei a faculdade, mas não consegui obter o visto. Então fui trabalhar na Procter na Alemanha, na área de desenvolvimento de produto. Mas eu queria voltar para o Brasil, onde morei desde os 10 anos de idade, então vim para cá e entrei na Johnson. Quando a Procter veio para o Brasil, eles me chamaram. Depois, fui transferida para o Canadá. Voltei, finalmente, com dupla penalidade: a primeira, foi o casamento, que acabou. A segunda: como não cumpri o prazo estabelecido pela empresa, não consegui de imediato a promoção prevista. Precisei provar que merecia.


Provou?

Acho que sim. Faz parte do jogo. Quando voltei, toquei o projeto de fraldas da Pampers com a meta de tornar o produto 50% mais barato do que os concorrentes. Foi uma supervirada e acabei cuidando de várias outras categorias na empresa. Mas quando a Procter quis me transferir de novo, eu recusei. Não queria sair do Brasil e fui trabalhar na Credicard, uma experiência muito rica. Eu já estava no marketing e ali era o sonho. Eu tinha todos os tipos de dado sobre consumidor à disposição. Fiquei na empresa até 2003. Eu tinha trinta e poucos anos e era a VP mais jovem da época.


Ser muito jovem e mulher atrapalhou? Incomodou?

Eu era a VP mais jovem, mas não era a única a mulher. Sinceramente, a coisa do gênero nunca me incomodou, principalmente aqui no Brasil. Quando eu trabalhava na Alemanha, talvez sentisse um pouco mais o machismo. A força de trabalho feminina era de apenas 25% porque as mulheres de lá não tinham ajuda em casa. A maioria não saía pro mercado de trabalho na época. Mas, em nenhum momento da minha carreira, me senti discriminada, embora admita que o ambiente financeiro seja realmente masculino. No Citibank, onde trabalhei de 2003 a 2006, eu era a única mulher nas reuniões. Hoje, quando olho pra trás, vejo o quão jovem eu era pra assumir aquela posição… Mas como eu sempre fui de encarar os desafios, acho que mantive o foco para evoluir na carreira.


Por que você não queria uma carreira fora do Brasil?

Porque eu já morei muito tempo fora e eu gosto do Brasil. Eu nasci na Alemanha e me mudei pro Rio quando eu tinha dez anos. Estudei nos Estados Unidos, trabalhei na Alemanha e no Canadá, então eu vi que já tinha batido bastante o cartão. O Brasil é a minha pátria.


Você tem filhos?

Ainda não. Mas tenho três sobrinhos. É uma delícia minha relação com eles, queria poder vê-los mais.


Você decidiu não ter filhos?

Não, não foi uma decisão. Eu simplesmente acho que a criança tem direito de ter um pai e uma mãe. E, então, você precisa achar uma pessoa legal pra ter esse filho. Eu ainda não encontrei o momento certo, mas não abandonei a ideia. 


Você trabalha quantas horas por dia?

Dez ou onze horas por dia. Acho que os brasileiros produzem menos com as mesmas horas que os outros povos que eu conheci. Temos problemas com a pontualidade, com o combinar e fazer… No fundo, acho que o dia de trabalho do brasileiro é mais comprido, porque não respeitamos combinações e horários. Se as pessoas ouvissem melhor, a maior parte das reuniões seria mais rápida e objetiva. O brasileiro fala mais que os americanos e os europeus. Tem outra coisa também que se faz melhor fora do Brasil, o planejamento. Quando você planeja melhor, você executa melhor. Por outro lado, e o motivo para eu ficar aqui é que o calor humano é tão melhor que a eficiência dos países do hemisfério norte…


Qual é o maior desafio de produzir bens de consumo no Brasil? 

O principal desafio, honestamente, é o custo no Brasil.  Produzir aqui é difícil. Por outro lado, acho inaceitável, para o nosso consumidor de Havaianas, que o produto seja feito lá fora. Então, continuamos na batalha.


Em termos de comportamento, qual sua opinião sobre o consumidor brasileiro?

Um grupo grande de pessoas ganhou maior capacidade de consumo nos últimos anos. Estas pessoas estão mais exigentes. Isso é ótimo e extremamente saudável. O consumidor está usando mais o crédito. O mercado interno está melhor, mas não estou confortável com o futuro. Do ponto de vista de crescimento da economia,  acho que o país vai andar de lado.


Qual é o melhor momento do seu dia?

É sempre de manhã, o despertar. Sou extremamente mais pensante de manhã.

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