sexta-feira, 25 de julho de 2014

Prostituta formada em letras conta vida em livro.

Formada em letras conta em livro sua história de prostituição; leia trechos

'O prazer é todo nosso', de Lola Benvenutti, sai no dia 11 de agosto.
Prévia exclusiva ao G1 fala de 'cura gay' e casal de meia idade em crise.

 
Do G1
 
Lola Benvenutti mantém blog com histórias de seus clientes em São Carlos, SP (Foto: Felipe Turioni/G1)Lola Benvenutti, que lança livro 'O prazer é todo
nosso' (Foto: Felipe Turioni/G1)
 
Literatura e sexo foram as atividades principais de Gabriela Natalia Silva, 22 anos, durante a graduação em letras. Ela se dividia entre o curso na Universidade Federal de São Carlos (SP), e a atividade de garota de programa. Ao se formar, começou a escrever na web sobre a experiência de prostituição, com o pseudônimo Lola Benvenutti. É assim que ela assina o livro em que volta a unir as duas atividades. "O prazer é todo nosso" (Editora MosArte) sai no dia 11 de agosto.
Em entrevista ao G1, Lola defendeu a escolha pela prostituição. "Tem uma categoria nos sites de acompanhantes de universitárias e fazem isso porque fazem faculdade particular e precisam pagar, mas eu nunca precisei disso, sou inteligente, fiz faculdade, optei por isso, qual o problema?". Ela rejeitou comparação com Bruna Surfistinha, que narrou a experiência em blog e livro. “Ela teve uma vida diferente da minha, com outras oportunidades."
No novo livro, a jovem nascida em Pirassununga (SP) conta sobre "momentos marcantes de sua vida como garota de programa, incluindo suas experiências com a alta sociedade", ela diz ao G1. A pré-venda começa no dia 30 de julho, no site da editora.

Leia abaixo trechos exclusivos de "O prazer é todo nosso":
'O prazer é todo nosso', livro de Lola Benvenutti
(Foto: Divulgação)
'O prazer é todo nosso', livro de Lola Benvenutti (Foto: Divulgação)'Nossa essência não tem 'cura'' 

"Em função de minha profissão, dia a dia sou colocada diante de questões que me fazem pensar cada vez mais sobre as barreiras fortíssimas de nossa sociedade em relação à sexualidade e, sobretudo, em relação à liberdade sexual dos indivíduos.
Embora eu não seja formada em psicologia, o fato é que muitas pessoas me procuram crendo que eu posso ajudá-las. Um desses casos aconteceu com Juno. Ele me ligou tímido, a voz triste quase não saía e eu mal podia escutar o que ele me dizia. Explicou-me que era gay, como se isso devesse ser justificado de alguma maneira, e logo demonstrou que não se conformava com isso. Em linhas gerais, ele queria sair comigo para ver se gostava de mulheres, queria sair com uma puta para tentar provar que era “macho”.

Sua súplica fez com que eu me compadecesse e cedi ao seu pedido. Foi um dos atendimentos em que fiquei mais tensa, pois eu queria realmente ajudá-lo, mas não acredito que se possa exorcizar o lado gay de uma pessoa, justamente porque esse dado não é uma doença, embora “psicólogos” sem ética vendam “curas” por aí, principalmente nas portas das igrejas

O que eu queria era que Juno percebesse que viveria em conflito até que conseguisse enfrentar seus medos, seus anseios e seus desejos. [...] Conversamos muito e percebi que se ele não entendesse e aceitasse sua orientação sexual, em um esforço de se enganar, ele seria muito infeliz.
Como não podia deixar de ser, embora haja exceções, Juno vinha de uma família ultraconservadora: o pai era um médico tradicional e a mãe uma dona de casa voltada exclusivamente às vontades do marido. O pai exaltou seu primeiro filho homem e determinou que o criariam para que fosse um macho capaz de “comer” uma menina por dia. Para isso não faltavam rituais: o doutor o levava a puteiros constantemente e, quando Juno finalmente ia para o quarto com uma garota, ficava tão inquieto e sem jeito que as garotas, entendendo sua situação, simplesmente se deixavam ficar no quarto, apenas esperando a hora combinada terminar.
O jeito como ele falava sobre as garotas evidenciava certa aversão em relação ao ambiente e ao próprio corpo feminino. Era um bloqueio e eu percebi isso quando tentei me insinuar algumas vezes. Juno fingia não me ver diante dele. Seu olhar fugia de mim, direcionando-se para o teto, os móveis, o quadro na parede... [...] Cada vez que ele se dava conta de que estava “fugindo” de mim, seus olhos começavam a lacrimejar [...] Então bolei uma estratégia [...]"
 
Lola Benvenutti se formou no curso de letras em São
Carlos, SP (Foto: Felipe Turioni/G1)
Gabriela Natália da Silva, ou Lola Benvenutti, se formou no curso de letras em São Carlos, SP (Foto: Felipe Turioni/G1)'A reinvenção dos prazeres'
 
"O número de homens de meia idade, e casados, que vêm até mim com a queixa de que suas mulheres não os desejam mais, ou que eles não as desejam mais, é realmente elevado. Mas nem todos estão dispostos a ouvir o que tenho a dizer: que devem conversar com suas parceiras, que um casamento pode ser renovado apesar do tempo e que contratar uma prostituta para “amenizar” uma frustração – embora me renda lucros – não vai resolver o problema conjugal que eles têm. Assim como os corpos mudam com o tempo, também os desejos seguem esse movimento de transformação e precisam ser redescobertos a todo o momento.
Nossos desejos são subjetivos e dizem respeito a cada um [...] Em uma relação conjugal, se o casal for realmente sincero entre si, os parceiros conhecerão as necessidades e os desejos sexuais um do outro na medida em que se relacionam sexualmente. Tenho prazer em descobrir nos corpos com que me deito o que lhes dá prazer e o que neles me dá tesão. Sexo é, portanto, sempre um ato de constante aprendizado já que os corpos se transformam diariamente, natural ou artificialmente, havendo sempre algo por se desvendar e experimentar.
Numa manhã de sexta-feira, recebi a ligação de Lúcia.
— Você é a Lola que é... – Tentava perguntar com uma insegurança que lhe fazia tremer a voz.
— Garota de Programa? Puta? Sou eu sim.
— ...
— Posso ajudar?
— É que... Acho que meu marido não sente mais tesão por mim. E eu até entendo, porque já não tenho mais 20 anos, não tenho mais um corpo lindo e jovem como o seu... Mas estamos casados há um bom tempo e... Desculpa por te falar essas coisas!
— O que é isso, querida. Fale mais, vai que posso ajudar vocês.
— Eu já tentei de tudo, Lola. Até o que eu não gosto, que é aquilo por trás, já deixei meu marido fazer, mas acho que ele quer se separar porque não tem mais desejo por mim. Mas a gente se ama, sabe? Ou se acostumou a se amar assim.
— O que acha de combinarmos um dia para conversarmos pessoalmente. Se você está me ligando é porque acho que deseja fazer alguma surpresa para ele...
— Você pode almoçar comigo hoje?
E lá fui eu, Lola, almoçar com essa mulher misteriosa. Conversamos muito e a estranheza que ela sentia diante de algumas coisas que eu falava era nítida, afinal, sexshops, sextoys, ménage à trois, etc. não eram expressões comuns para ela. O legal é que a curiosidade persistia e ela concordou em experimentar coisas novas com seu parceiro. No início, ela queria me “dar de presente” para seu marido, mas depois de horas de conversas resolveu que eu seria a encarregada de presentear os dois com uma noite inesquecível e renovadora.
Na noite esperada, o casal chegou ao quarto do motel. Ele mostrava-se sisudo e muito desconfiado de tudo e a Lúcia estava em nervos. Chamei-os para perto da cama, servi-lhes vinho, petisco com queijos e torradinhas temperadas, e me dediquei a conhecê-los melhor.
Alguns casais que atendo são verdadeiramente safados, não há descrição melhor. Alguns acabam comigo em poucas horas e se divertem horrores, já outros ficam assim, tímidos, receosos com a forma como seu parceiro reagirá caso toque o meu corpo.
Depois de algumas taças de vinho comecei a puxar assunto sobre sexo e aí a coisa foi ficando interessante [...]"

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