segunda-feira, 23 de junho de 2014

Plano Real 20 anos depois: fim da hiperinflação mudou a vida dos brasileiros.

Plano Real 20 anos depois: fim da hiperinflação mudou a vida dos brasileiros

 
Real


Imagine acordar e descobrir que o governo anunciou um novo plano econômico. A moeda mudou de nome, não é mais o real, é o fuleco, com três zeros a menos – ou seja, mil reais valem agora 1 fuleco – e os preços foram congelados. “Droga”, você pensa, “bem agora que o gatilho ia disparar e meu salário ia subir 100%! Não devia ter confiando naquele novo ministro gordinho e careca...”.

Você deveria saber. Sempre que seu salário passa de um milhão e a inflação de 30% ao mês vem um novo plano. O pior é que este pegou você com estoques baixos. Será preciso ir a vários supermercados ou pedir para seus filhos irem junto para conseguir mais alguns litros de óleo, leite, açúcar e umas garrafas de cerveja, pois as lojas só vendem três unidades por pessoa.
Se achar, pois os produtos já estavam em falta na semana passada. Da última vez, fechou o tempo no supermercado lotado depois que uma mulher pegou duas latas de leite condensado do carrinho da outra, que estava levando 15.


Freezer e carne

Pelo menos de carne você fez um bom estoque. O freezer enorme que você comprou está quase cheio e vai evitar que você tenha de pegar filas intermináveis ou pagar ágio para o açougueiro.
É preciso também fazer as contas para ver como vão ficar as aplicações financeiras, que nunca pagam toda a inflação passada depois dos planos econômicos. E as dívidas, como o aluguel, que terão de ser recalculadas usando os redutores da “tablita” que o governo divulgou.


Carro com fila

O carro usado que você comprou, pelo menos, se valorizou bastante. Aquele Lada russo foi o melhor negócio que você podia ter feito. Quem sabe este ano você consegue comprar um carro zero? Tem de pagar à vista e esperar 12 meses para entregarem, mas é melhor que pagar o ágio de 40% para tirar o carro na hora. Talvez você financie, em até três meses...


20 anos do real

Esta era a vida dos brasileiros 20 anos atrás, antes de o Plano Real encerrar, em 1º de julho de 1994, décadas de hiperinflação que atrapalhavam a vida das empresas e da população. Especialmente os mais pobres, que não tinham a proteção da correção monetária sobre suas economias.
Em 1993, a inflação medida pelo IPCA do IBGE havia atingido a impressionante marca de 2.477,15% no ano, a maior da história do Brasil e uma das maiores do mundo. Ou seja, um carrinho de compras que custava 100 cruzeiros em janeiro terminou dezembro daquele ano custando 2.577 cruzeiros. Os preços avançavam a uma média de 31% ao mês.
Com o real, a inflação caiu de 46,58% em junho para 6,08% em julho, fechando 1994 em 916,46%. Em 1995, o IPCA ficou em 22% e, em 1996, em 9,56%. A inflação só voltou a superar 10% em 2002, em meio à incerteza com a eleição do presidente Lula, quando o IPCA fechou com alta de 12,53% (ver tabela abaixo).


Problema antigo

A inflação alta acompanhava o brasileiro desde os tempos de Juscelino Kubitschek, nos anos 1950. Mas foi no período pós-ditadura militar que os preços degringolaram de vez, chegando ao pico de 80% ao mês (equivalentes a 115.583% ao ano) em 1989, no fim do governo de José Sarney, responsável por quatro planos – Cruzado, Cruzado 2, Bresser e Verão.
Do fim do regime militar, em 1985, até 1994, foram seis os planos econômicos que tentaram segurar a inflação com congelamentos de preços. Todos os planos anteriores ao real seguravam a inflação por cerca de um ano, mas ela voltava, ainda mais forte. Nem mesmo o congelamento de 90% dos ativos financeiros no Plano Collor, em 1991, foi capaz de equilibrar os preços, e levou ao Plano Collor 2 em 1992.


Estratégias de sobrevivência

Tanto tempo convivendo com a inflação e tantos planos frustrados fizeram os brasileiros se acostumarem com o descontrole de preços. A correção monetária, criada nos anos 1970, protegia parcialmente as aplicações financeiras e os contratos, garantindo a atualização dos valores pela inflação passada. “A indexação tornava os brasileiros mais desiguais, era uma anestesia que isolava parte da sociedade do problema”, lembra Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central.
As famílias faziam estoques de produtos, pois sabiam que os preços iriam subir ou haveria escassez mais adiante. Já as famílias mais pobres tinham de correr comprar o que pudessem assim que recebiam os salários, antes de os preços aumentarem. Os salários também se indexaram, com gatilhos semestrais, depois trimestrais e, finalmente, mensais, que previam correção sempre que a inflação passasse de determinado nível. Tudo isso não impedia, porém, as perdas, pois quando a correção chegava ao salário os preços já tinham subido muito mais.


Diferença entre planos

Mas o que fez o real funcionar quando tantos outros falharam? A explicação está na visão que se tinha das causas da inflação nas tentativas anteriores. Na maioria das vezes, tentava-se congelar os preços, salários e o dólar, achando que somente isso resolveria.
Assim, o problema fundamental, o descontrole dos gastos dos governos, continuava. “Estados e municípios não se pagavam entre si, não pagavam a união, era um caos, e isso se estendia aos bancos estaduais, às teles estaduais, as empresas de distribuidoras de energia estaduais e geradoras, que não pagavam o sistema elétrico federal. Tudo quebrado”, lembra Franco.
Com o governo gastando muito mais do que podia, imprimindo moeda para honrar as despesas, logo havia excesso de dinheiro na economia, o consumo crescia e superava a oferta dos produtos. E os custos das empresas subiam. E, com os preços congelados, a saída das empresas era parar de produzir para evitar o prejuízo. Começava então a falta de produtos e a cobrança de ágio.


Risco da reindexação

Ao mesmo tempo, havia o problema da indexação. A cada plano, as pessoas que tinham valores a receber queriam a correção de seus valores pela inflação antiga mesmo que, na moeda nova, a inflação fosse zero. Com isso, os planos já nasciam com correções de 30%, 40%, até 50% nos contratos, relativos aos meses anteriores, o que pressionava os preços na nova moeda.
Outro fator que impedia a manutenção da inflação baixa era a crônica falta de dólares do Brasil. Para aumentar as exportações e pagar os compromissos externos, era preciso desvalorizar o real e puxar para cima o valor do dólar, o que pressionava a inflação. Ao mesmo tempo, sem dólares, o governo tinha de limitar as importações, o que permitia que as empresas locais cobrassem o quanto quisessem por seus produtos de baixa qualidade. A situação piorou em 1987, quando o governo Sarney decretou, de maneira precipitada e embalado por um discurso nacionalista, a moratória da dívida externa, o que fez o Brasil perder o crédito internacional.


Quatro ministros em sete meses

O Plano Real começou a surgir em maio de 1993, quando Itamar Franco, que havia assumido a Presidência após o impeachment de Fernando Collor de Mello, colocou Fernando Henrique Cardoso, que era ministro das relações exteriores, no Ministério da Fazenda. Era o quarto ministro da Fazenda de Itamar em menos de sete meses, o que explica a inflação recorde naquele ano.
Com carta branca do presidente, que exigiu apenas que não houvesse surpresas para a população, Fernando Henrique reuniu uma equipe de economistas de peso que começou a elaborar o Plano Real em setembro de 1993. Entre eles estavam Pérsio Arida, André Lara Resende e Edmar Bacha, que haviam também organizado o Plano Cruzado. A eles se juntaram Pedro Malan, Gustavo Franco, Clóvis Carvalho e Winston Fritsch.


Ataque às causas

O plano conseguiu se sair bem porque atacou os três problemas principais: primeiro, o país conseguiu garantir o equilíbrio das contas públicas ao criar, em março de 1994, o Fundo Social de Emergência, que permitia ao governo deixar de cumprir algumas exigências de gastos obrigatórios. Depois, em abril, o governo fechou um acordo com os credores internacionais, reabrindo o financiamento externo para empresas e ao governo.


Drible na indexação

A parte da indexação, porém, pode ser considerada uma das mais engenhosas do Plano Real. O governo criou, em 28 de fevereiro de 1994, a Unidade de Referência de Preços, a URV, que poderia ser usada como alternativa ao cruzeiro novo, moeda da época, para fixar os preços. A URV era corrigida pelo Banco Central diariamente. Assim, as pessoas podiam cobrar os preços em URV, e depois converter o valor atualizado todos os dias em cruzeiros novos. Era como se as pessoas cobrassem o valor em dólar, recebendo o equivalente em moeda brasileira corrigida.
Isso permitiu que as empresas ajustassem seus preços à realidade, pois mesmo com a inflação disparando em cruzeiros novos, o valor em URV seguia o mesmo. Até que, em 1º de julho, a URV virou a moeda, o real, e o cruzeiro novo desapareceu. Mas aí os preços já estavam ajustados em URV, e não era preciso tablitas ou ajustes. A estratégia do Plano Real foi semelhante à dolarização adotada pela Argentina pouco antes, com a vantagem que o Brasil não abriu mão de sua moeda, ao usar a URV, e não o dólar como referência para coordenar os preços e salários.
A estratégia da URV permitiu também que o Plano Real fosse diferente porque não houve surpresas para a população e para as empresas, como nos planos anteriores. A sociedade acompanhou o processo, cujos passos foram anunciados com meses de antecedência.


Medidas complementares

Outras medidas complementares permitiram a manutenção dos preços sob controle. Junto com o ajuste fiscal e externo e a driblada na indexação, o governo promoveu a liberação das importações para aumentar a concorrência com os preços locais, para impedir abusos das empresas. Além disso, os juros subiram para controlar a economia e evitar uma explosão de consumo. E o dólar foi mantido praticamente congelado perto de um real por dólar, servindo como âncora indireta para a nova moeda.


Frango e porta-moedas

Com o fim da inflação, houve um forte ganho de renda da população, especialmente para as famílias mais pobres, as que mais sofriam com a perda do poder aquisitivo, e que passaram a comprar mais. Houve uma explosão do consumo de frango e, ironicamente, de dentaduras e depois de móveis e eletrodomésticos.
Outra marca do Plano Real foi a volta das moedas, que haviam desaparecido na época da hiperinflação. Virou moda ganhar de amigos ou do banco porta-níqueis, que faziam sucesso nos camelôs, e indicavam a volta da confiança na moeda do país após tantos anos.


Crises e âncora cambial

O Plano Real enfrentou depois várias crises internacionais, como a do México em 1995, a dos Tigres Asiáticos em 1997, da Rússia em 1998 e, finalmente a do Brasil em 1999, que obrigou o governo a abandonar a âncora cambial e deixar o real flutuar. Até essa data, a âncora do real era o preço do dólar, controlado pelo governo, e os juros altos.
Depois, foi preciso criar outras âncoras, e as escolhidas foram o superávit primário do governo e as metas de inflação, garantias de que o governo não voltaria ao descontrole das contas públicas de antes de 1994. Essas âncoras foram mantidas no governo Lula e permitiram ao país crescer nos anos 2000 sem a inflação disparar.
Abaixo, tabela mostra o comportamento da inflação ano a ano desde 1983, segundo o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea).


O real e a inflação
Ano (%)
1983 164,01
1984 215,26
1985 242,23
1986 79,66
1987 363,41
1988 980,21
1989 1.972,91
1990 1.620,97
1991 472,7
1992 1.119,10
1993 2.477,15
1994 916,46
1995 22,41
1996 9,56
1997 5,22
1998 1,65
1999 8,94
2000 5,97
2001 7,67
2002 12,53
2003 9,3
2004 7,6
2005 5,69
2006 3,14
2007 4,46
2008 5,9
2009 4,31
2010 5,91
2011 6,5
2012 5,84
2013 5,91
Fonte: Ipea Data

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