sábado, 31 de agosto de 2013

O desafio do câncer no século XXI.

O desafio do câncer no século XXI

 Duilo Victor,Flávia Milhorance - O Globo

Célula cancerosa. Compreensão do tumor mudou muito no último século
 
Célula cancerosa. Compreensão do tumor mudou muito no último século 
Foto: Latinstock/Science VU/W. J. Johnson / Agência O Globo
 
 
 
Imagine controlar o câncer como se faz com a hipertensão. Não é uma mera projeção, já que especialistas concordam que o conhecimento sobre ele está finalmente chegando à maturidade. Tratamentos com base em sequenciamento genético e imunoterapia são as apostas para conter os danos da doença que poderá afetar 27 milhões de pessoas até 2030, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). E eles podem ser alternativas à tríade “cirurgia, quimioterapia e radioterapia”, ainda predominante, mas acredita-se que não por muito tempo.
Um passeio pelo Acervo do GLOBO mostra que, nos anos 20 do século passado, era comum associar o câncer a doenças contagiosas, como a lepra. Nessa década, uma inspetoria sanitária foi criada no Brasil apenas para desinfectar corpos de mortos por tumores. Entretanto, Luiz Antônio Teixeira, do Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde da Fiocruz, destaca que teorias que soaram absurdas por muito tempo, como a de que o câncer é causado por vírus e bactérias, voltaram décadas depois com explicações melhores. Não é transmissível, mas sabe-se hoje que a infecção por certos tipos de HPV está relacionada com o desenvolvimento do câncer de colo do útero. Assim como a infecção estomacal por bactérias específicas associa-se a tumores no órgão.
- Mas não há dúvida de que é o envelhecimento o principal fator de incidência no câncer - explica Luiz Teixeira. - A impressão de que o câncer não existia ocorre porque não havia diagnóstico. Cânceres com sintomas mais externos, como o de mama, têm registros desde a Idade Antiga, já os de abdome matavam sem serem identificados. Morria-se de problema na barriga.
Desde sempre, apesar de todos os avanços, nada superou a eficácia do bisturi como forma de tratamento, segundo o cirurgião oncológico Marcos Moraes, presidente do Conselho de Curadores da Fundação do Câncer:
- Apesar de ser cirurgião, incomoda-me pensar que a amputação de um órgão ainda é a melhor solução.
Moraes, que deixou a presidência da Academia Nacional de Medicina este ano, diz que há tipos de câncer em que se opera desnecessariamente, como o de próstata, frequentemente não agressivo mas, por outro lado, sem um marcador eficiente de sua forma mais letal.


Informação genética contra o câncer

O câncer não é uma doença única. Nem se olhássemos só para o tumor da mama poderíamos compreendê-lo como uma enfermidade específica. Hoje, cientistas sabem que ele se manifesta de forma diferente nos indivíduos, e esta é a grande dificuldade de encontrar terapias eficientes. A compreensão do genoma humano trouxe algumas respostas e uma grande esperança, que começa a ter efeitos práticos.
- Podemos fazer o sequenciamento genético dos diferentes tipos de tumor para os quais há inibidores específicos capazes de bloqueá-los. Embora ainda limitados para poucos tipos de câncer, estão disponíveis comercialmente, inclusive estou encaminhando o material de um paciente - comenta Daniel Tabak, oncologista e titular da Academia Nacional de Medicina. - A medicina personalizada vem garantir não o tratamento de doenças, e sim, de pacientes.
Tabak lembra que a ideia de tratamento para um alvo tão específico tem pelo menos cem anos. Segundo ele, o vencedor do Prêmio Nobel Paul Ehrlich, tentando identificar uma cura para a sífilis, reconheceu o receptor das células infectadas e criou um tratamento inicial com arsênico.
- As terapias não evoluíram em grandes saltos - justifica o especialista, que acredita que o futuro do câncer será seu controle, não a cura. - Está ficando claro que a cura definitiva da doença é mais difícil do que o controle. Se conseguirmos transformá-lo em doença crônica, como a hipertensão, ele deixará de ser um problema.
As células de câncer são um mal do nosso próprio corpo, defeitos da multiplicação de nossos próprios tecidos. Sobrevivem e prosperam porque nosso sistema imunológico, que combate a todo momento invasores como vírus e bactérias, não consegue identificar com a mesma eficácia uma célula cancerosa como inimiga. Na terapia imunológica, hipótese levantada pela ciência desde o século XIX, a estratégia é marcar quimicamente o câncer para que seja “visto” pelas células do sistema imune. Dentro dessa estratégia há duas táticas: ou treinamos as nossas próprias células para identificarem o invasor, no caso das vacinas; ou já tomamos a defesa pronta para ser usada, no caso dos anticorpos monoclonais.
No mercado desde os anos 80, os anticorpos monoclonais estão na categoria dos medicamentos biológicos, que levam este nome porque o princípio ativo é produzido em laboratório a partir de micro-organismos vivos. O rituximab, por exemplo, é um remédio da categoria para o tratamento de linfomas.
- Há vários tipos de tratamento, mas o problema é que os resultados são punitivos, com muitos efeitos colaterais. As terapias imunológicas e o estudo histológico das células do câncer são certamente o caminho, mas é grande a chance de estarmos errados no futuro - afirma Moraes, fazendo a ponderação própria que a história das verdades científicas ensina.
Professor da Universidade do Texas, Woodring Wright publicou na revista “Cell Reports” um artigo que pode levar à produção de uma vacina contra o câncer a partir de um método para inibir a telomerase, enzima que leva à divisão e à replicação descontrolada de células cancerosas:
- O que sabemos sobre o câncer agora é espantoso em comparação há 20 anos. Traduzir esse conhecimento em tratamento é difícil. Mas estamos de fato chegando a algum lugar.

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